História
BRAULIO? QUE BRAULIO?
Meio-campista do Inter dos anos 60 e 70 foi protagonista de uma das maiores controvérsias do futebol gaúcho de seu tempo
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O Garoto de Ouro
Futebol-arte ou futebol-força? Na Porto Alegre final dos anos 60, quando a preparação física se profissionalizava cada vez mais e atletas habilidosos e eminentemente técnicos pareciam perder lugar para boleiros, corpulentos e de explosão muscular, um meio-campista se tornaria o jogador mais discutido de sua época: Bráulio. Dono de um estilo de jogo clássico, com a mudança de filosofia de futebol ocorrida no Internacional a partir de 1969, o meia passou a ser considerado um representante do "decadente" estilo dos tempos do Rolo Compressor, dividindo mentes e corações de jornalistas e torcedores contra ou a favor do futebol que ele próprio representava.
Mesmo assim, Bráulio tinha copa franca com boa parte da torcida e parte da crônica esportiva. Muitos ainda se recordavam daqueles anos difíceis que foram os de vacas magras, nos meados dos anos 60, quando a infra-estrutura era precária, e os atletas jogavam no limite. Também se recordavam especialmente daquele Gre-Nal do Roberto Gomes Pedrosa, de 1967, quando o meia foi o nome do jogo, vencido pelo Inter. Desse clássico, surgiu o apelido, dado pelo então locutor Mendes Ribeiro, que passou a chamá-lo de O Garoto de Ouro.
A nova filosofia nasceu com o Beira-Rio, em abril de 1969. A partir de então, Os Mandarins, um grupo de conselheiros de fortes convicções a respeito de organização de clube e time, de grande influência dentro do Inter, sob o aval do então presidente colorado, Carlos Stechmann (batizado com este nome por Luis Fernando Verissimo, que os comparava aos antigos mandarins da China, "que tudo sabiam, tudo faziam mas poder não tinham"), passaram a ditar as regras, baseados na experiência vitoriosa do Grêmio heptacampeão e em conceitos diferenciados, de sua própria inspiração. Eles pregavam um futebol espartano, com menos brilho e mais vigor, diferente do academicismo herdado dos anos 50, que fazia o time marejar os olhos da torcida com seu toque de bola para, no fim, entregar a taça de campeão gaúcho para o seu arqui-rival...
Para tal modelo, Bráulio era um anacronismo de farda e chuteiras: franzino, parecia não ser bom marcador, não dava combate. A principal figura dos Mandarins era Ibsen Pinheiro, que era o primeiro a amavelmente execrá-lo. Em 1970, ele confidenciou que tentara a troca do meio-campista ao Grêmio, em favor do ponta Volmir. Revelou que foi dissuadido pelo então presidente tricolor, Rudy Petry, que brincou, dizendo que Bráulio seria mais útil aos azuis jogando no Inter. No lugar dele, os assessores de Stechmann queriam Sérgio Galocha. Estava armada a controvérsia: eram os anti-brulistas contra os braulistas. Futebol-força contra futebol-arte.
Como o Garoto de Ouro tinha parte com a torcida, muito do sucesso do "novo" Inter foram abaixo de vaias de braulistas inconformados. Entre eles, estava o próprio Verissimo, que recém iniciara a sua trajetória na crônica, ao ocupar o lugar de Sérgio Jockeymman em Zero Hora. O autor de "O Popular" revelou em seu livro Internacional ¿ Autobiografia de uma Paixão que, no entanto, o pièce de resistance dos anti-braulistas não era Sérgio, mas sim o ponta Valdomiro, que teve um começo conturbado no clube, sendo vaiado pelos torcedores, embora tivesse todo o crédito do treinador Daltro Menezes. O cronista diz que, com o tempo, o ponta de três jogadas (bola parada, linha de fundo e cruzamento), realmente era o seu "futebol-força" o responsável pela maior parte dos gols do time: "foi Valdomiro quem finalmente conquistou a torcida para o futebol dos Mandarins", relembra.
A polêmica causou a primeira deserção no grupo: cansado das críticas, Hugo Amorim, um deles, deixou a assessoria de Aldo Dias Rosa na vice-presidência de futebol. Com o passar dos meses, mesmo indiferente à controvérsia, o meia colorado seria responsável pelo fim dos próprios Mandarins. Entre eles e Bráulio, o presidente do clube ficou com o "futebol-arte". A verdade é que, com efeito, a simples opção por um modelo ou outro não seria responsável pelo êxito ou o fracasso do time, embora a nova medida imposta pelos Mandarins realmente colhesse frutos com o passar dos anos.
Para Verissimo, o exagero em cima desse debate tinha uma explicação: naquela época, o futebol era um refúgio da política: "a própria questão Galocha versus Garoto de Ouro ganhara conotações políticas no Inter, com a sugestão de que os Mandarins, esquerdistas, queriam valorizar o coletivo sobre o individual e por isso combatiam aquele que brilhava muito", diz o escritor.
Bráulio entende aquela controvérsia tinha contornos pessoais: "foi um baque" conta. "Eu não esperava que aquelas pessoas que gostavam de mim ficassem contra mim", revela. "O Ibsen não me queria no Internacional, nem como jogador, nem como pessoa".
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Carlos Stechmann (à direita), Daltro Menezes (de branco) e os Mandarins
Sérgio Galocha e Bráulio continuaram se revezando no meio-campo. Com a saída de Daltro, o controverso meia seria reintegrado por Dino Sani, em 1971, que não queria prescindir de seu talento. Mesmo assim, ele sentia que sua situação no Beira-Rio era indefinida. Foi quando chegou o embate entre Inter e Santos, no Pacaembu, valido pelo Brasileiro. Para ele, dentro das quatro linhas, Bráulio disputaria a sua permanência no clube. "Eu sabia que se eu fosse mal naquele jogo, eu seria mandado embora", relembra. "Se eu fosse bem, o Stechmann ganharia as eleições". O presidente colorado então estava em má situação, perdendo o pleito nas projeções por seis votos. No vestiário, Sani insistiu ao meia, que estava abalado com a perda recente de seu avô:
- Você joga?
- Jogo - decretou, convicto.
Figueroa, que recém havia sido contratado, chegou para ele, e disse:
- Te quedes tranquilo, que Pelé no vai jugar. Faça a tua parte e ganha o jogo para nós.
Confiante, Bráulio jogou todo o seu futebol, enquanto o gringo chileno, como prometera, barrou as investidas do Rei. Numa jogada de ataque, ao ser lançado, deixando dois marcadores sentados, o "polêmico" meio-campista chutou com a perna que só usava para subir no bonde, a esquerda, e mandou a pelota para o barbante, bem longe das mãos do goleiro Cejas. Resultado final: 1 a 0, no todo-poderoso Peixe...
O gol do Garoto de Ouro virou as eleições. Dois cinco, seis votos que faltavam, o Carlos Stechmann ganhou as eleições de Aldo Dias Rosa, por 154 a 152. "Foi esse gol que ganhou as eleições", garante o jogador. Porém, com a sua permanência no Beira-Rio, os Mandarins deram o ultimato: ou ele ou nós. O presidente ficou com Bráulio. Para o craque, em compensação, a sua vitória pessoal não o livrou de certos dissabores.
De acordo com ele, muitos dos ex-assessores da presidência colorada foram para a imprensa e, entrincheirados atrás de microfones e máquinas de escrever, passaram a mover uma jihad contra o seu futebol: "cada um procurou uma fonte, e ali começaram a me combater", conta. "Fizeram aquela coisa do braulismo e anti-braulismo, e já era uma coisa pessoal". Para Bráulio, era uma guerra cruenta: "eu era um jogador técnico: não era um ponta-de-lança", explica, hoje. "Se eu estivesse jogando agora, eu seria o segundo volante, eu seria um Tinga, não saberia marcar, mas não precisaria marcar tão bem", desabafa. "Então, houve essa polêmica toda, eu sofria demais".
Desgastado com as críticas, ele decidiu mudar de ares. Foi quando surgiu uma proposta para ir para o América. Mesmo relutante, à princípio, ele seria campeão pelo clube em 1974, além de ser escolhido o Craque do Ano, Bola de Ouro, entre 1974 e 1977. O Garoto de Ouro também jogaria pelo Botafogo, Coritiba e Universidad do Chile, quando em cerrou sua carreira, em 1980.
posted by Marcelo Xavier 11:09 AM