Entrevista
O BUGRE XUCRO
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Alcindo no Grêmio, em 77
Descoberto no Inter em fins dos anos 50, Alcindo Martha de Freitas se tornaria o maior um dos maiores centroavantes da história do Grêmio No tricolor, ele fez 636 gols, se tornando o maior goleador dos últimos quarenta anos, desde a inauguração do estádio Olímpico. O Bugre, como era chamado por seu ímpeto dentro das quatro linhas, marcou treze gols em Grenais, marca hoje quase impossível de ser alcançada. Após saída tumultuada do colorado, ele só retornaria aos Eucaliptos para saciar a sua sede de vingança ao time que o preteriu. Depois de ser emprestado ao são Paulo de Rio Grande, Alcindo jogou no Grêmio de 1964 a 1969, conquistando cinco regionais. Entre 1971 e 73, jogou no Santos de Pelé, Rildo, Clodoaldo e Oberdan. De 1973, ano em que se sagrou campeão paulista pelo Peixe, e 76, esteve no futebol mexicano, a convite do ex-capitão do Bi, Mauro. Jogaria ainda no time que o projetou em 1977, quando foi novamente Campeão Gaúcho, encerrando a carreira no Francana, em 1978. Alcindo também jogou na Seleção na malfadada participação da Copa do Mundo de 1966.
Na entrevista, ele fala do começo no Inter, a consagração no Grêmio, as histórias rocambolescas da participação brasileira na Inglaterra, quando o Brasil foi eliminado nas oitavas-de-final e a sua ida para o futebol paulista, nos anos 70.
Como foi o começo da sua carreira, Alcindo?
Foi no infantil do Aimoré. Eu sempre fui centroavante por influência do meu irmão, Alfeu. Depois eu fui ser juvenil no Lansul, que um dia fez um amistoso com os aspirantes do Inter. Na época, o Inter tinha o Flávio Bicudo, o Dagoberto, Ceconi, Guaporé, era um time fabuloso. Nós perdemos de quatro a três, e eu fiz os três. Depois do jogo, o Abílio dos reis foi falar comigo, e fez o convite. Só que, chegando lá, tinha o Flávio, o Sadi Schwerz, que era centroavante, o Valdir Fraga, e eu tinha quatro na minha posição na minha frente, e quem chega de fora, sente dificuldade. Mas como o Abílio me indicou, eu senti que eu tinha condições de lutar. E acabei fazendo dupla com o Flávio, eu tinha uns quinze anos. Isso foi 1957, 1958. Eu fui goleador pelo Inter num Gre-Nal no Olímpico, nós ganhamos com cinco a um, com quatro gols meus.
E o Grêmio? Como foi a ida para o Grêmio?
Antes, o juvenil jogava no Sábado, e os aspirantes faziam a preliminar. O Gre-Nal foi no Olímpico, e os profissionais do Grêmio estavam assistindo, o Fernando Kroeff, o seu [Rudy Armin, ex-presidente] Petry. Mas, antes das férias, eu falei com o seu Abílio: Tô com problema, eu tenho que pegar dois ônibus, um de Sapucaia do Sul até o Mercado, e o Linha 77 até o estádio. Eu não queria aumento: queria apenas ajuda de custo, porque eu estava com dificuldades. Na outra semana, o Abílio tava treinando, e antes ele falou com o presidente Fagundes de Mello. De repente, entrou no campo aquele senhor de gravata. Quando ele falou com o Abílio, ele apontou para o meu lado, e eu pensei que nunca que ia ser comigo, nunca. E ele veio. Eu era tão desconhecido que ele teve que perguntar: ¿quem é esse tal de Alcindo?¿. Isso que, uma semana antes, eu tinha feito quatro gols. Ele veio, era bem baixinho o homem. E, de repente, ele começou a crescer diante de mim. Eu respondi: ¿acho que o Alcindo sou eu¿. Ele respondeu: ¿Ah, é tu? Mas vem cá, o que tu está pensando, guri? Tu tem dois irmãos jogando no time de cima. Quem dá aumento para eles sou eu. Eu que digo quem vai ganhar, o quanto vai ganhar. Quem é tu, um juvenil, que vai falar que tá querendo aumento.
Eu fiquei surpreso, porque ele era o manda-chuva do clube. Eu falei com o Abílio, e ele deu aquela bola nas costas, o homem abaixou as calças, me mijou bastante, e eu ali, com quatorze, quieto. ¿Tá vendo aquele portão ali¿, ele apontou para a entrada dos Eucaliptos. Ele viu que eu tava de cabeça baixa, mas olhando. ¿Pois tu pode ir embora!¿. E eu achei que o homem ia me mandar sair. Mas, depois que ele se foi, o Abílio, recomeçou o treino. Mas aquilo me deu uma coisa ruim. Ele me perguntou: ¿Não vai jogar? ¿Eu respondi: ¿Vou embora¿. ¿Tá brincando?¿, ele perguntou. ¿O que o homem te disse?¿. Vai lá e pergunta para ele¿, eu respondi, chorando. Muitos têm uma história parecida para contar, e acho que, se não tivesse sorte, eu não estaria aqui contando isso...
Como o Grêmio soube?
Pensei em voltar pro Aimoré ou o Lansul. Mas, dias depois, o Camelinho, torcedor do Grêmio, perguntou em casa por um guri que jogava no Inter. Porque eu tinha um irmão mais velho, o Alcino, que estava no Grêmio. Ele disse que o dr. Kroeff tinha mandado ele lá para me buscar. Só que o Grêmio me deu o dobro sem eu pedir. Lá eu achei minha casa, e fui muito bem recebido. Foi um casamento que deu certo. Eu fiquei no juvenil, mas jogava nos aspirantes, contra os profissionais. Eu fiquei assim até ser emprestado no São Paulo de Rio Grande, onde eu fiz um ano de estágio. Em 1962 eu estava liberado, de volta, mas ainda tinha o Juarez, e depois o Paulo Lumumba. Tive sorte lá, e voltei para o Grêmio, já titular. O ataque era Babá, Joãozinho, eu e o Volmir. Quando nós engrenávamos, era difícil. Inclusive, o jogo da Rússia. Sempre fui um jogador aplicado na preparação física, então nunca fui preguiçoso para esse tipo de coisa, eu fazia até mais porque achava que, quando precisasse dentro de campo, eu ia poder realizar.
Tu chegaste a jogar pelo Grêmio contra os teus irmãos?
Com o Kim, eu só joguei contra, com o Rio Grande. Depois que eu saí, ele ficou. Em 1964, 65, eu joguei contra o Rio Grande. E em 1964, eu joguei junto com o Alfeu, que foi contratado pelo Grêmio. Nós jogamos juntos, até que ele foi para a Argentina, jogar no Newell¿s Old Boys.
Mas a dupla mesmo foi com o João Severiano?
Até porque o Alfeu eu aprendi muito. Mas a dupla era com o João porque ele tinha outra caracter, nós éramos meio parecidos de frente. As poucas coisas que eu tenho eu devo à ele.
Tu foste direto para a Seleção Brasileira principal ou teve participação em categorias de base?
Fui direto. Tive sorte, porque aquele jogo contra a Rússia, em 1965, não era costume da CBD, e era difícil uma equipe como aquele se apresentar aqui. Foi comentada essa vinda deles, e daí veio a comissão, o Vicente Feola, e eu fiz dois gols, e eu assinei o passaporte pelo menos para ir para o Rio de Janeiro.
Como tu e o Tostão se entenderam dentro de campo?
Eu dei sorte até porque o Tostão tinha um estilo de jogo parecido com o do João Severiano. Não era ambicioso, largava a bola de primeira, gostava de vir para a tabela. Com o Tostão não houve aquele negócio de tocar e o fulano não devolver a bola, aquela panela que sempre há entre os craques. Como eu e ele estávamos procurando um lugar ao sol, então eu agradeço a ele e ele a mim por termos nos ajudado. Porque ali não houve maldade nenhuma. O Flávio Bicudo foi convidado, fechou muito. O companheiro dele queria que fosse um outro de outro time (o Silva, do Flamengo). O Vicente gostava de duplas. O Pelé e Servílio, Flávio e Silva). Eu e o Tostão.
O que aconteceu em 1966 quando foi formado o grupo? Vocês fizeram uma excursão na Europa e tiveram que cortar jogadores lá?
Tu vê, não era prá mim ter ido, porque eu estava no último jogo, e eu tinha uma lesão muito grave. E aí o doutor David Gusmão não pôde testemunhar, mas ele disse parta mim: ¿Tu tem uma fissura no pé¿. Só que não era uma: eram duas. Mas como a minha vontade e a do Grêmio eram grandes para me projetar, porque eu fiz muita propaganda para ir em todos os países, levava panfletos do Grêmio, e eles nem sabiam quem era o Grêmio. Eu fui bem lesionado. O último jogo foi em Niterói, eu fiz três gols, e no final do treino, eu machuquei o tornozelo. E imediatamente vim para Porto Alegre, e fiquei com três meses de gesso. Três meses. E eu tirei o gesso, e viram a fissura na radiografia. Engessaram de novo, e eu fui, o médico da CBD tirou o gesso, a gente fez a excursão, eu não joguei nenhum jogo, e o Feola me levou mesmo sem condições. No primeiro jogo contra a Bulgária, eu fui titular na estréia (Brasil 2 Bulgária 0), e perdemos para a Hungria...
O Oto Glória mandou baterem no Pelé. E os portugueses liquidaram com ele...
Eu nem gosto dele falar, mas o Pelé também não tinha condições. Ele tinha um distensão profunda na virilha. Do primeiro jogo eu fui infiltrado, o Pelé também foi. O Garrincha também. O segundo jogo contra a Hungria, ele sentiu muito, que ele tinha uma distensão violente. Ele não jogou, e eu joguei. Entrou o Tostão no lugar do Pelé. E no último jogo, a fissura virou fratura. O campo de Wembley era muito pesado, e quebrou o meu pé. Saíram eu e o Gilmar, entraram o Silva e o Manga. Perdemos de 3 a 1. Essa história é eu posso contar porque sou testemunha. Imagina se ele tivesse condições. Se todo mundo não conseguia chegar perto do Pelé. Porque eles iriam chegar em 1966? E bateram bem. É porque ele estava mal fisicamente, como eu e toda a Seleção. Por isso que bateram nele, porque ele não tinha condições. Se ele tivesse bem, meu Deus, teriam passado por cima. O preparador era o Júlio Hermanny era o preparador, e ele era o professor de judô do Fluminense. O Nascimento, era o coordenador, ele trouxe o Hermanny. Esse que foi o preparador físico da Copa de 1966, então a coisa não podia dar certo. E a CBD não se preocupou com a renovação da Seleção, e nós fomos com a Seleção de 58: Garrincha, Bellini, Zito. Nós fomos com uma equipe velha e nós ganhamos em 1970 porque houve uma renovação.
Depois da Copa, tu ganhaste um monte de títulos pelo Grêmio, até 1969? E como foi a tua ida para o Santos? Foste trocado pelo Mazinho?
Houve um lance comigo, comigo e o Jair. Houve um dois toques, ele estava no gol. O Sérgio Chorão era o treinador. Quando eu levantei a bola, disse pro Jair: vem que eu vou te dar um balãozinho. Quando eu baixei a cabeça, ele pegou a bola no ar e caiu em cima do meu joelho, e houve uma ruptura dos ligamentos do joelho, e eu tive que parar um ano e meio. Nesse meio tempo, assumiu o Oto glória no Grêmio. Fui para a Escola de Educação Física da Urca. Estava lá o Jairzinho, o Carlos Alberto Torres, o Paulo Henrique, e nessa época, havia um campeonato dos quartéis no Rio. Como a gente estava no quartel, a gente estava defendendo a Urca. E jogamos contra o time do Brito, que era da Ilha do Governador, contra vários quartéis. Como eu já estava bem, jogávamos na frente eu, o Carlos Alberto, o Jair e o Paulo Henrique. Nós começamos a ganhar de todo mundo, nos domingos na Ilha. E ia o diretor. E eu fui o goleador lá. No jogo final, fiz um monte de gols, e tava lá o diretor do Fluminense, que me disse: ¿mas Alcindo, tu tá bem, tá fazendo gol. Em Porto Alegre diziam que você estava bichado. Eu disse que estava bem e estava voltando. Ele perguntou: ¿tu quer vir para cá?¿. Eu disse que tinha que falar com o Grêmio. Uma semana antes, o Santos veio jogar com o Grêmio no Olímpico. E o Mazinho fez dois gols. E ele não tava bem, mas o Mazinho fez os gols. O Carlos Alberto voltou do Santos para o Botafogo, eu ia voltar para o Grêmio, e o Paulo para o Flamengo. E o Carlos Alberto falou com os diretores e com o Pelé. Só que eu já tinha a proposta do Fluminense, e eu gostaria de jogar no Rio. Mas o Pelé teve uma influência grande. Fui para o Santos e não me arrependo disso.
Tu te lembra do teu time?
Cejas, Carlos Alberto, Oberdan, Ramos Delgado e Rildo; Clodoaldo, Brecha e Afonsinho; Manoel Maria, eu, Pelé e Edu. Eu saí uma semana antes, ficou Santos e Portuguesa, e o Armando Marques teve confusão nos pênaltis... Eu saí uma semana antes, fiz todo o Paulista, e uma semana antes o Mauro Ramos, que era o treinador do Santos, foi para o México, e me ligou, me convidando. Eu disse que queria ficar pelo menos na final. Ele respondeu: Alcindo, tu vem, porque mexicano quer, e outra hora não quer. E eu fui. E depois eu fiquei sabendo que o Armando se perdeu. Mas fiquei dois anos no Santos.
E lá no México? Jogaste no Jalisco com o Mauro?
Joguei dois anos e meio, só que era um time pequeno, e que já trocaram de nome. Depois, fui para um time grande, que me deu condições, e tive um filho meu, que nasceu no México, Juan Carlos, que nasceu na Cidade do México.
Deu para ganhar mais aonde? Aqui, no santos, no México?
Olha, eu não sou de me queixar. O futebol não é como hoje, onde as coisas são fáceis. Mas eu não posso me queixar. Ganhei bem, o Aírton, foram poucos. Só que hoje dá muito mais. Mas eu seria injusto em dizer que não.
Fonte: depoimento a João carlos Belmonte, Band AM 640 (www.bandrs.com.br)
posted by Marcelo Xavier 5:42 PM