O PROFETA DO ACONTECIDO

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Quarta-feira, Dezembro 14, 2005

 


Memória
A PRIMEIRA ESTRELA
No dia 14 de dezembro de 75, o Inter tornou-se campeão brasileiro
ao vencer o Cruzeiro com o gol iluminado de Figueroa




O gol iluminado



Domingo, 14 de dezembro de 1975. O Internacional comandado por Rubens Minelli enfrentava um dos maiores times do Cruzeiro de Minas Gerais, válido pelo Campeonato Brasileiro daquele ano. Do alto das nuvens que nublavam os céus de Porto Alegre, os deuses do futebol assistiam lá embaixo, no gramado do Beira-Rio, a uma guerra cruenta: de um lado, Falcão, Carpegianni, Valdomiro, Flávio e Lula; do outro, Dirceu Lopes, Raul, Nelinho, Piazza e Joaozinho. Eis que, aos onze minutos do segundo tempo, um raio de sol furou o bolo de nuvens e esguichou sua luz sob a fronte de Figueroa no momento em que, em câmera lenta, ele saltava suavemente para encontrar com a bola oriunda de uma cobrança de falta, que caia na área pequena enquanto o zagueiro colorado subia mais alto do que os beques mineiros. Os mais de 82 mil torcedores alvirrubros assistiram a um milagre: o Inter era campeão. Mais do que isso, era a primeira vez que eu time do Sul conquistava o Brasil. Aquela decisão completa hoje 30 anos.

Diferente de como ocorre hoje, aquele time foi concebido muitos anos antes. Para muitos, tudo começou quando o time juvenil de 1969 foi guindado à equipe principal, ainda dirigida pelo polêmico Daltro Menezes. Entre eles, destacavam-se os meias Escurinho, Cláudio Duarte, vindo de São Jerônimo, e Paulo César Carpegianni. Meio-campista de origem, Duarte virou lateral já em 1970 por sugestão do olheiro Abílio dos Reis, porque Paulo César seria sempre o titular da posição. Em 1971, chegava o técnico Dino Sani e Figueroa, egresso do Peñarol que, mesmo não querendo vendê-lo, acabou cedendo o atleta por conta de dívidas que o clube uruguaio havia contraído. Na mesma época, Hermínio aparecia para opção na quarta-zaga. Vacaria vinha do 14 de Julho de Passo Fundo. Antes, de Criciúma o Inter em 1968 trazia Valdomiro, para jogar toda a década seguinte na ponta-direita. Em 1973, Falcão ganhava espaço na maia-cancha por intermédio de Sani. Em 74, vieram Manga no lugar de Schneider e Lula, para a ponta-esquerda. No fim do ano, o paulista Rubens Minelli era o novo técnico, trazido pelo folclórico e eficiente Frederico Ballvé, vice de futebol de Eraldo Hermann.

Então chegou 1975. No começo do ano, o Internacional iria fazer uma excursão à Europa, no começo do ano. O volante que iria compor o grupo era Vitor Hugo (depois foi para o Grêmio). Pouco antes da viagem, um motorista bêbado o atropelou, na frente do Beira-Rio. Na hora de fazer a relação de atletas, não havia ninguém para ocupar a vaga de Vitor Hugo. De repente, o veterano goleiro Schneider chegou para Minelli e falou de um cara que havia estourado a idade nos juvenis. Cutucou-o e apontou para um sujeito mais ao longe:

- Chefe, leva aquele negrão ali.

- Quem? - retrucou o treinador.

- Aquele negrão ali. Ele joga em qualquer função de defesa.

O ¿negrão¿ era Caçapava.

E ele foi coma delegação. O time jogou quinze partidas, pegou neve, Inverno abaixo de zero, campo de terra, lama. E Caçapava era o coringa: só não jogou de goleiro. Quando o clube retornou, o volante entrava na meia no lugar de Escurinho, fechando com Paulo César e Falcão. Escurnho, que era considerado por Minelli um jogador menos esforçado, ficava no banco para entrar no segundo tempo, e jogar pela sua grande característica: o cabeceio.

Faltava um bom centroavante. Como Claudiomiro estava acima do peso e confundia o apetite da bola pelo de comida, foi preciso arranjar outro. Então Ballvé se lembrou de Flávio Bicudo, que estava no Porto e resolveu trazer o ex-craque colorado de 1961. Arrumou o dinheiro e mandou o diretor de futebol, o jovem Pérsio França, para negociar com o clube português, em plena convulsão da Revolução dos Cravos, que derrubava a ditadura salazarista na terra de Camões. Antes, anunciou à Minelli:

- Rubens, eu decidi que vou trazer o Flávio.

- Que Flávio?

- O Minuano

- Porra, mas ele ainda joga? - espantou-se o treinador.

Jogava. Tanto que, no primeiro jogo, um Gre-Nal, dia 13 de julho, marcou o gol da vitória colorada, aos quatro minutos do primeiro tempo.



De roldão, o vice do Inter também trouxe Lula. Teve resistência de Minelli. Um estafeta assoprou no ouvido de Ballvê:

- Se tu trazer o Lula, o Minelli se demite.

- Não interessa - gozou o dirigente. - O Rubens não joga. Deixa de frescura. Vão dar sopa pro azar.


Apesar de excelente ponta, Lula era tido como problemático. Certo dia, irritou tanto o ¿chefe¿ que o ¿raposa do deserto¿ pediu demissão. Além do mais, se achava desgastado com rumores vindo da imprensa a respeito de declarações distorcidas após um jogo do Brasileiro. Apavorado, um assessor ligou para Ballvé, que sempre acordava tarde,e foi solenemente acordado no terceiro sono:

- Seu Ballvê, o Minelli se demitiu!

Lá foi o vice colorado, às pressas ao estádio. Vestiu seu uniforme de explorador africano e rumou para o Beira-Rio Quando viu o treinador, ouviu o pedido irrevogável:

- Estou demissionário. O Lula me enche todo dia, todo dia é uma tragédia, quer bicho, nunca chega na hora, assim não dá para continuar!

O dirigente colorado não se conteve, e sem perder o bom humor:

- Minelli, vai prá puta que te pariu, pede demissão lá no pôr do sol! Deixa que eu resolvo esta merda com eles.

Reuniu o grupo de atletas. Todos cabisbaixos. Ballvé conhecia o grupo que tinha. Olhava-os de alto a baixo, enquanto andava de um lado a outro, com as mãos para trás, como um sargentão. Berrava uma metralhadora de palavrões, como sempre:

- Vocês viram o que fizeram??? Vocês viram o que fizeram??? O Minelli pediu demissão. Quem aqui tem alguma coisa contra ele?

¿ Eu ¿ disse Lula.

¿ Tu não ¿ gritou Ballvé. ¿ Tu briga até com a tua mãe.

Todos caíram na gargalhada e a célula de crise acabou ali. Ciente do temperamento do seu camisa 11, Ballvé proferiu uma frase que se tornou lapidar:

¿ O Lula infernizava a gente a semana inteira, mas no jogo ele infernizava o time adversário.

Outro craque ciclotímico mas não menos folclórico era Manga. Se fechava o gol debaixo dos arcos, era um gambeteador nato: adorava uma roleta. Vivia pedindo vales para os dirigentes ou para Valdomiro, que era o tesoureiro do grupo de jogadores, para apostar nos cassinos de Montevidéu. Depois de cada jogo, ele tomava banho, vestia a beca e viajava para a capital uruguaia. Enquanto todos economizavam o dízimo da ¿caixinha¿, Manga estava sempre devendo. No vestiário, ele chegava para Valdomiro, e, do seu jeito, falou:

- Nêne, Nêne, tiene um valezinho para Manguinha? - suplicava, com o sotaque entre nortista e portunhol.

- Então me traz a assinatura do diretor - respondia o disciplinado ponta.

Vale no bolso, no posto de gasolina ao lado do estádio, Manga negociava o bicho, arrecadava o dinheiro adiantado, botava as passagens e partia para o Aeroporto Salgado Filho...

Manga também gostava de um carteado, e o resto do grupo topava. Certa vez, em plena concentração, estavam ele, Lula, Carpegianni no quarto de Valdomiro. Ao flagrá-los, Vacaria, pé ante pé, de pura molecagem, foi entregar todos à Minelli:

- Chefe...

- O quê?

- Eles estão jogando baralho...

Lá foi o ¿raposa¿. Bateu na porta do quarto. Silêncio total:

- Quem é? - perguntou Valdomiro.

- Eu, Minelli!

Instalou-se o pavor. Pisando em ovos para não serem pegos, foi um para cada lado. Paulo César se escondeu debaixo de uma cama, Lula escafedeu-se debaixo da outra, e Manga, ato reflexo, entrou no roupeiro.

Minelli entrou. Olhou para os lados. Abriu o armário:

- Muito bonito, né seu Manga? - bradou o técnico, mãos na cintura.

- Jefe, me perdoa, jefe! - suplicava o goleiro, do alto dos seus quarenta e poucos anos, com o sorriso amarelo, enquanto Vacaria se rachava de rir.

Se pareciam pândegos fora de campo, dentro, todos se tornavam líderes porque gostavam de ganhar. Cláudio Duarte entende que essa filosofia foi criada no dia-a-dia, no calor das reuniões e através das lideranças que impunham isso. ¿Quando o time não ganhava, fechavam a porta do vestiário e a cobrança era dura¿, lembra o lateral. ¿Diziam que se tu perdeu uma recupera na outra, mas não: a que tu perde, nunca mais recupera¿, diz. Ele revela que, nesses momentos, o grupo se impunha muito, e havia uma certa compreensão dos dirigentes. ¿A gente se impunha no trabalho, no condicionamento¿, explica Duarte. ¿Essa mentalidade era imposta no grupo, era um time que gostava de ganhar¿.

Figueroa era o primeiro líder, o capitão. Mas havia as outras: ¿Cláudio era o que gritava, ele organizava muito¿, relembra Falcão.¿O Figueroa era a liderança mais fleumática. O Paulo César tinha uma liderança técnica: dava a bola para ele, depois só tirando com um fuzil¿, analisa. Para o ex-volante, outro atleta com esse perfil era Valdomiro: ¿era liderança técnica¿, relembra. ¿Todos sabiam que era só passar para ele que ele alçava a bola para a área¿, diz. ¿O time tinha tudo, tinha cobrador de falta¿.

Com essa mentalidade, e com o trabalho espartano do preparador Gilberto Tim, o Internacional flanou no Campeonato de 1975. Depois de ser surpreendido no Recife pelo santa Cruz, o time descontou a derrota no Sport no Beira-Rio (3x1). No Morumbi, segurou um empate em zero com o São Paulo, venceu o Grêmio em casa (1x0) e o Náutico nos Aflitos. Em Porto Alegre empatou com o Flamengo (1x1) e goleou a Portuguesa (3x1). Então veio o jogo mais complicado: a semifinal contra o Fluminense, em pleno Maracanã. Era a inexpugnável Máquina Tricolor de Rivelino e Paulo César Caju, um time tão forte que a imprensa carioca já soltava foguetes, entronizando a equipe pó-de-arroz com o a verdadeira campeã de 1975.

Quando a delegação colorada chegou à Cidade Maravilhosa, o treinador do Flu, Didi, falava para os setoristas que era jogo jogado e que estava mais interessado com a final. Minelli ouviu tudo e levou a declaração do ¿Folha Seca¿ para dentro do vestiário. No dia seguinte, ele jogou o Jornal dos Sports na cara de todos.

- Leiam isso - ordenou.

Na partida, o Inter cresceu em campo: Rivelino não pôde jogar, ante a marcação canina de Caçapava, que o anulou, deixando Gil morrer de inanição na pequena área. Resultado, Inter 2x0 em pleno Mário Filho com Nelson Rodrigues e 180 mil torcedores chorando lágrimas de esguicho. Colorado finalista.


Veio a final. Com a vitória, o Inter velava a decisão para casa. Minelli já anotava duas ausências, Cláudio e Vacaria. Optou por Hermínio e Valdir. Eis que, em pleno Sábado, durante coletivo, o pior dos sinistros: Manga havia fraturado um dedo da mão. Ballvé apareceu no estádio soltando fogo pelas ventas:

- Nenhum time faz treino sábado, porra! - berrava. - Não precisa! O que os caras vão aprender sábado que não aprenderam na sexta? Joguem xadrez no sábado, porra!

Foi ver a situação de Manga. No departamento médico, o goleiro viu o dirigente, e disse:


¿ Acho que não vai dar prá amanhã ¿ fala, com voz mansa. ¿ Manguinha tá problema

Ballvé deu um vale para o ¿fenômeno¿. Depois, mandou que colocassem uma tala. De noite, o arqueiro viu o dirigente:

¿ Manguinha já tá melhorzinho...

Decisão difícil como todas as decisões. Minelli e Tim, ligeiramente tensos. Como eles sabiam que o Cruzeiro iria tentar matar o jogo no começo, o ¿raposa do deserto¿ recuou Caçapava, e previa um jogo longo, talvez um empate com prorrogação. Minutos depois, Joãozinho entrou grande área adentro, cara a cara com Manga, obrigou o goleiro a jogar-se aos pés do atacante. O choque fez o ¿fenômeno¿ soltar um urro de dor. Tim mandou Schineider aquecer, mas Manguita gesticulou que iria tentar permanecer no gol (na verdade, há quem diga que era um ardil tanto para ganhar tempo em campo quando fazer jogo de cena para sustentar o ¿migué¿ em Ballvé, já que ele tinha o dedo fraturado)

Com o correr do relógio, Caçapava soltou-se mais à frente, junto com Falcão e Paulo César. O treinador colorado sabia que o jogo seria quase sem alternativas e o placar seria pequeno. Quem levasse o primeiro gol, fatalmente perderia a partida. O segundo tempo terminou no zero.

A tradição diz que falta inexistente marcada perto do gol é sempre gol. E a tradição se fez aos onze minutos. Dulcídio Vanderlei Boschilia marcou falta de Piazza em Valdomiro, cuja cobrança só não foi menos surpreendente do que o esguicho de luz em Figueroa. O gol deixou o jogo cada vez mais emocionante, ainda mais quando Boschilia apitava à favor do Cruzeiro no campo do Inter. De todas as formas possíveis, o franco-atirador do clube mineiro tentava desafiar as leis da Física e a capacidade do atribulado Manga, que também conseguia desafiar as leias da Física, ziguezagueando no ar para conseguir desviar a trajetória das faltas.

Aos 46, outra falta em Nelinho. Ele iria cobrar. O vice Ballvé se levantou automaticamente do banco:

- Porra! Falta do Nelinho é gol! Se empata, nós estamos fudidos!

E invadiu o campo. Minelli veio atrás. O estádio inteiro implorava pelo fim do jogo. Num derradeiro contra-ataque, Lula ainda perdeu a chance de ampliar na cara do gol, chutando a bola inexplicavelmente para o alto.

E, quando o árbitro apitou, o Internacional e o Rio Grande entravam no mapa do futebol nacional pela primeira vez, quando incrustou no peito a sua primeira estrela.

INTER
( 1 )
Manga, Valdir, Figueroa,
Hermínio, Chico Fraga, Caçapava,
Falcão, Paulo César, Valdomiro (Jair),
Flávio, Lula
Técnico: Rubens Minelli

CRUZEIRO
( 0 )
Raul, Nelinho, Morais,
Darcy Menezes, Isidoro, Piazza,
Eduardo (Souza), Zé Carlos, Roberto Batata (Eli).
Palhinha, Joãozinho
Técnico: Zezé Moreira
LOCAL: Estádio Beira-Rio



posted by Marcelo Xavier 10:38 PM


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