Entrevista
O PASSARINHO
Poucos jogadores que vestiram a camisa do Grêmio vestiram com tanta dedicação como Yúra
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O guerreiro tricolor
Ele nunca foi considerado um atleta exemplar, mas era dono de uma garra inexpugnável. "Eu fui 80% gremista e 20% jogador de futebol", diz Yúra, nascido Júlio Titow, 54 anos. Oriundo da várzea, ele subiu para o grupo profissional do Grêmio em 1972 e tornou-se titular da equipe em 1974. Sofreu derrotas até 1977, quando finalmente conquistou seu primeiro título, sob a batuta de Telê Santana. Para Yúra, Gre-Nal não era jogo, era guerra. Deixou o futebol cedo (27 anos), depois de rápida passagem pelo Criciúma, para cumprir contrato. Nesta entrevista, o ex-meia tricolor, também conhecido como "Passarinho", fala de sua relação com o futebol amador, a história no Grêmio e sobre o time de 77, montado por Telê.
Como foi o começo no futebol?
Eu sou muito feliz pelo que me aconteceu no futebol. Porque eu vim da várzea, coisa inédita, direto para o profissional,com 19 anos, e isso é importante: eu não tive a infra-estrutura física e alimentar que o departamento amador dá. Vim da Vila Floresta, do Itapeva, um clube de várzea, não tinha boa alimentação, e fui para o choque, pesava 59 quilos. Comecei a treinar no Grêmio um mês depois. Teve um fato interessante, porque, na primeira semana, a diretoria gremista já foi me buscar em casa, preocupado porque eu não aparecia nos treinamentos. acharam que eu havia abandonado. Eu não tinha, eu estava há três dias dormindo,e a minha mãe preocupada porque eu não acordava,nem me alimentava direito, por causa do cansação, eu pesava 59, e cheguei na infra-estrutura do Grêmio onde a gente colocava aquelas botas de ferro. eu não tinha estrutura para aquilo, e tinha que fazer um trabalho especial. Hoje o pessoal reconhece. Eu passar para 62 quilos mas perdia três, quatro por jogo, impressionante. Eu não erao cara fanático por treinamento, isso veio da minha estrutura.
Teu pai é russo?
Meus pais são, minha irmã nasceu na Itália, meu vô é alemão, mas eu e meu irmão somos brasileiros. Fugindo da guerra de navio, paramos num acampamento na Vila Dique, era onde deixavam os refugiados. A história foi como aconteceu no filme Girassóis da Rússia, com o Marcelo Mastroianni. Mas eu nasceu em Porto Alegre, na Vila Floresta. Engraçado que meu pai não entendia nada de futebol, mas depois virou colorado, como toda a minha família, e acho que é por isso que nasceu em mim essa paixão pelo Grêmio. Eu digo que eu não sou atleta: eu fui 80% gremista e 20% jogador de futebol.
Como começou o interesse?
Sei que, eu estudava, eu largava tudo para jogar, pulava a janela para jogar. E naquela época, sábado e domingo, o pessoal que montava times me pagava para jogar, na minha zona, na verdade, eu era o melhor. Meu irmão jogava bem,mas ele era mais velho, e eu cheguei ganhando sempre. Comecei antes dos quatorze anos no Itapeva,mas a Federação não permitia. E com doze, eu era titular, eu jogava no segundo quadro, mas jogava no primeiro, eles me botavam lá. O Itapeva, que não ganhava nada há anos já ganhou o primeiro título, tinha o campeonato da cidade, fomos vice campeão porque eu não joguei a final. Foi quando o Abílio dos Reis foi me buscar.
Foi ele quem te descobriu no Itapeva?
É, teve o campeonato de várzea da cidade, fomos jogar contra o Concórdia, um dos grandes times da época. Naquerla época, tudo o que era esquina tinha campo de futebol. Todo mundo queria jogar nos times, Inter, Cruzeiro, Grêmio, mas eu achava a várzea espetacular, é uma coisa linda de se falar. A gente enchia ônibus para ir no campo do adversário. A gente tinah que ir com uma torcida forte, senão tu acabas apanhando. Tinha o Vila, o Wallig, o Liberdade, o Pombal, são coisas importantes.
Era amadorismo ou os bons ganhavam alguma coisa?
Na minha época, eu estava servindo o Exército, e eu não servia no fim-de-semana porque eles me pagavam para outro soldado tirar a minha hora de serviço. Mas eu não tinha dinheiro, eles pagavam e eu jogava no domingo. E no Exército era outra briga, porque eles queriam que eu jogasse lá também! E eu era goleador, e os tenentes me prendiam porque eu ia jogar na várzea.
E como o Abílio te descobriu?
Eu gostava de narrar jogos, narrava até no banheiro. Contei até para o Alcindo, que eu narrava os jogos jogando com o Aírton, com o João Severiano, eu dizia que jogava com todos eles. Me lembro que, no primeiro dia que eu cheguei no Olímpico, eu vi o Alcindo, e aquilo me marcou muito. Ver o cara que era o meu ídolo. depois fui jogar com ele em 77. Havia um centromédio nosso, o Cacau, que foi treinar no Grêmio, e ele se destacou. O Abílio foi ver esse garoto, porque eles tinham mudado a idade do Juvenil de 18 para 20 anos. Falaram para ele que, se podia mudar, tinha um garoto do Itapeva, o Yúra. Ele foi ver o cacau e a mim. E o Abílio me chamou. E eu estava num canto depois do jogo, e tinha feito três jogos. Eu nem sabia que eles estava lá, sabia só que ele tinha procurado o Cacau. Chegou o presidente do clube, e mandou o rapaz, e o Abílio estava me procurando, ele queria aquele tal ponteiro esquerdo, e eu jogava na ponta.
Aí tu foste para o Juvenil.
Fui. Cheguei lá, estava o João Severiano, que era trinador. Cheguei com um problema físico, me recuperei, e comecei a jogar. Apareceu um jogo: Grêmio e Atlético Mineiro, no Olímpico. E queriam um ponteiro-direito. Perguntaram para ele se podiam tirar o Catarina para ser reserva no jogo. Daltro Menezes era o treinador. o João disse: acho que tem um aqui que é mais novidade para vocês. ele pode ficar no banco, e tenho certeza que ele pode ser usado no meio, também. Me convocaram. E eu entrei no jogo. Carlinhos era o titular na ponta, se machucuou e eu entrei. Eu entrei e fiquei cara a cara com o Mazurkiewicz, foi a famosa canela de vidro, quando o Paulo Santana [jornalista esportivo] disse na crônica: como é que o Grêmio lança um garoto sem preparo, com canelinha. Eu fiquei magoado com ele, porque depois eu mostrei que a minha canela não era de vidro. Eu fui para a guerra em muitos Grenais e enfrentei o Daison Pontes [zagueiro do Gaúcho de Passo Fundo, dos anos 70]. Tu vê que futebol é uma coisa engraçada. Eu tentei driblar o Mazurca naquele momento, fiz a jogada de linha de fundo, e ele me calçou fora da área. Eu tinha uma velocidade violenta, e ninguém acreditou quando eu entrei, faltavam apenas quinze minutos de jogo, empatamos. Minha sorte que, logo em seguida, na partida seguinte eu fiz o gol da vitória, com o Palmeiras. Depois fui no Maracanã, fiz gol lá. Foi uma seqüência, e não voltei mais ao Juvenil. Voltei só para um Grenal da categoria no Beira-Rio, e fiz dois gols de uma vitória de três a zero. O Joãozinho enloqueceu.
Eu senti que o clássico era a chance de se consagrar. Eu peguei aquilo já no Juvenil. Depois, não deixaram eu descer mais. Me lembro que no Inter tinha o Falcão e o Carpegianni, que eu acho que foramos maiores jogadores que eu vi. Eu joguei ate os 27 anos, e tive oito anos de Grêmio. Eu joguei contra uma máquina. E eu me salientava. Muitos Grenais eu era chamado melhor em campo, mesmo o Internacional sendo uma máquina. O Brasil inteiro não conseguia ganhar do Inter. Eu não dormia antes do clássico. Via todos dormindo,mas não conseguia. Fumava como um louco, por isso que eu engordei tanto [Yúra pesa hoje 107 kg]. O Telê Santana nos pagava por fora para mim e para o Éder para a gente deixar de fumar, amas a gente fumava escondido.
E a afirmação, como se deu?
Foi com o Carlos Froner. Saiu o Daltro, e eu permaneci no plantel. Ele chegou, o Grêmio deu os jogadores para ele. O Froner foi ver um treino da 'baba', e me viu. e reclamou comos dirigente: vocês me deram os atletas mas não deram esse magrinho que tá na baba juvenil, quem é ele? E tinha jogo contra o Flamengo, no Maracanã, e ele queria me levar. E eu tô lá no banco, sentadinho, e o Flamengo ganhando de um a zero. E chovia cântaros, eu levei um pênalti e empatamos. Depois o Loivo fez um golaço de fora da área. a partir dali, não teve dúvida. Fui jogar contra o Santos do Pelé. Fizemos uma marcaçãode cinco para marcá-lo. O Froner botava dois de cada lado, e a gente precisava só do empate. Tava nos 35 do primeiro tempo, e a gente jogando bem. Eu era o segundo a marcar o Pelé, mas ele marcava bem também. Eu jogava às costas dele, e o Santos também nao estava preocupado, porque com o empate, eles também se classificavam. Mas se o Grêmio perdesse, seria eliminado. E o Froner me tirou no intervalo, porque o Renato deu uma de Aírton, o Pelé pegou a bola e mandou na gaveta. O Froner falou: nao brinca mais comigo. E eu estava junto. Ele brincou, quis jogar bonito e se deu mal. E no segundo tempo, o Santos meteu quatro! E Froner depois me disse: a partir de agora, tu é o meu titular e tu vai ser jogador de confiança do meio.
Depois veio Sérgio Moacir [Torres Nunes, ex-goleiro e treinador]. a crônica não entendia ele,mas os jogadores adoravam ele. Eu me tornei meia esquerda, e fui goleador no Grêmio, isso em 1974! Eu podia perder para o Inter, mas tinha esse lado bom. Depois, o Grêmio quis me dispensar, mas o Telê quis ficar comigo. O presidente Fábio Koff quis me tirar do clube para mandar para a Portuguesa. Eu respondi: vou, mas vou dar a volta por cima. O Telê ouviu e não deixou. E isso foi bom para mim e para o Grêmio. E eu tinha fama de esculhembador. Tudo o que acontecia, a culpa era sempre minha. Na verdade, eu fui um líder positivo e eles não sabem disso. Eu discutia com a crônica, mas eu botava a minha cara para bater. E teve casos aí em que me acusavam de estar de noite em três lugares ao mesmo tempo. Eu poedia para concentrar na quinta, quando tinha jogo importante. E os caras ligavam dizendo que eu estava bêbado na noite. Mas eu era da noite. Porque eu não ganhava o dinheiro que ganham hoje. se ganhasse, ficava em casa. A gente era jovem, e precuisava se divertir. E os caras davam de graça tudo. Ia eu, o Beto Bacamarte, o Beto Fuscão, o Cláudio Radar. Mas o Grêmio sempre contratava alguém para a minha posição. Achavam que o problema era eu. E dizia para os dirigentes. Contrataram o Alexandre Tubarão. Contratavam outros, o Grêmio perdia, e eu voltava. Foi quando chegou o Telê.
E tu estava afastado de novo?
É, e mudou tudo. Ele era profissional, tinha também bons dirigentes, não tinha só oba-oba, aqueles que só apareciam quando tinha festa. Tinha o Nelson Olmedo e o Telê. E ele era de gabarito. Era o cara que me ensinou futebol.
O Telê era melhor que o Ênio?
Não tenha dúvida. Ele era um amigo, morava na minha zona. Eu dei força na contratação do Ênio,mas o Telê foi o maior. Ele fazia jogada ensaiada, ele não era retranqueiro, queria atacar, atacava e defendia em bloco. Isso era importante.
Como foi a história do gol de menos de um minuto?
Foram 14 segundos. Era treinamento do Telê. Os reservas tinham que focar parados, e a gente tinha que sair, a bola vinha para mim, eu passava para o André, e ele passava para o Tadeu Ricci, que ficava um pouco mais atrás. O Tadeu esperava um minutinho, para que o Tarciso corresse; então, ele esticava para o Éder, e esperava o Tarciso entrar pela direita, e o Éder que, com a perna esquerda, botava a bola onde quisesse - ele treinava os chutes num bambolê como alvo - e de dez, ele botava nove. a gente apostava chope, e ele ganhava de todo mundo. a bola ia ser para ele, e nós fazíamos com todos os times. Na semana, a jogada bnão dava certo, mas a gente fazia. O problema é que o Beto Bacamarte aliviava de cabeça. Em geral, o Tarciso fazia o gol, e começava uma zero, e os reservas ficavam putos. Mas era com os reservas parados. Aí o Bacamarte xaropeava, e o Telê acabou com isso. E nós jogávamos normalmente.
Mas no Grenal, aconteceu de a gente fazer a jogada, e eu olhei que o Tarciso não tinha se enfiado no ataque. Então eu subi. Mas o Éder viu que eu me posicionei, e o Éder lançou a bola, enquanto o Catimba chegava junto. Nem o Telê viu o gol, porque estava limpando o banquinho para sentar. O André abriu e eu fiz o gol. E ainda no Manga. Em 14 segundos, num clássico, e no Manga, e num time que era uma máquina!
Você corria muito e ainda fumava?
No começo, quando o Telê nos pagava, eu parei de fumar. Mas eu tive dois jogos horríveis, em Recife e na Bahia, que o Telê me tirou no começo, porque eu não respirava. Aí eu fui para o vestiário, e voltei para o cigarro. Não conseguia respirar e achava que foi por falta.
E a história que o Éder urinou nos chinelos do Telê, foi verdade?
Foi um repórter que inventou isso. Não foi verdade. A briga foi que o Éder chamou o Telê de corno. e quem tirou o Éder não foi o Telê: ele não prejudicava o time. O Grêmio era o melhor candidato ao título naquela época. Não foi campeão por causa disso. Quem tirou foi o presidente Nelson Olmedo. E o Vasco ganou de nós. Mas Não era verdde. O Telê até chamou o Éder na Copa do Mundo.
Fonte: rádio Band
posted by Marcelo Xavier 4:03 PM