Clássicos
RAPSÓDIAS DE GERALDÃO
Centroavante do Inter venceu o Campeonato em dois clássicos
O torcedor do Grêmio não parava de comemorar o inédito título nacional de 1981: em maio, Baltazar matou a bola no peito, fuzilando impiedosamente o goleiro Waldir Perez, do São Paulo, de fora da área, foi dele o gol do título, em pleno Morumbi. No Olímpico, todos passarama aceditar no bi, uma ambição inefável para quem viveu o outro lado do tri invicto do inimigo, Internacional. No rastro do êxito, o tricolor resolveu ir às justas contra o arqui-rival: foi à Federação Gaúcha de Futebol, e comprou o passe do colorado Batista. Provocação, ou xeque-mate? a verdade é que, tão preocupado com a aquisição do ex-meia do Inter e com a campanha de 1982, o Grêmio acabou esquecendo um pequeno problema que cresceria como um baobá. O seu nome era Geraldo da Silva, mais conhecido como Graldão.
Refugado na Azenha quase como um fracassado, coube ao colorado a providência de contratar o centroavante demitido do Olímpico. Parecia ser o troco dado pelos dirigentes do Beira-Rio pela contratação de Batista, por parte dos gremistas. Um cronista esportivo da época,o tricolor Paulo Santana, no entanto, como o Velho do Restelo, apontou para o erro. ele quebraria lanças pela permanência do ex-atacante de seu clube do coração. Santana chegou a ensaiar até uma campanha, do tipo: "Fica, Geraldão", mas foi inútil. Contratado como parceiro de posição com Baltazar, o ex-Corínthians era considerado velho demais (32 anos). O problema é que, aos olhos de muitos, o "artilheiro de Deus" não parecia confiável nos Gre-nais. No fim, o Grêmio perdeu o título de 81 para o Inter. sem destino, Geraldão voltou para São Paulo...
Porém, com engenho e arte, e usando a máxima de que: sem centroavante, não se ganha título jamais", o diretor de futebol colorado, Frederico Balvé, velho conhecedor de centroavantes, resolveu apostar em Geraldão. E trouxe o ex-camisa 9 azul para o outro lado da José de Alencar.
A direção do Grêrmio apostava todas as fichas em Baltazar. E fez ouvidos moucos à crônica. Com o 'Artilheiro de Deus", o tricolor acabou perdendo o tão sonhado bi brasileiro para o Flamengo de Júnior, Mozer, Raul, Adílio, Andrade e Zico, em pleno estádio Olímpico. Porém, a torcida tricolor passou a acreditar na redenção em Batista. Mas o Inter estava em seu caminho, e no time, Geraldão. ele seria o protagonista dos clássicos Gre-Nal de novembro de 1982. O certame seria decidido num hexagonal, contudo as finais ficaram reservadas aos clássicos: o primeiro, dia 7 de novembro e o segundo, dia 28.
Pior para Émerson Leão, o goleiro do Grêmio. Em 21 dias, conseguiu tomar cinco gols do centroavante colorado - respectivamente Três no Beira-Rio e dois no Olímpico. No primeiro jogo, Renato Portaluppi fora expulso ainda no primeiro tempo. Ernesto Guedes, o treinador do Inter, não pôde ver o jogo da casamata: havia se acidentado com uma arma na semana anterior. Mas o estilista dos clássicos do gauchão daquele ano foi, justamente, Geraldão. Foi mais olímpica das façanhas. Até aquela data, nenhum atleta até então havia conseguido operar tamanha mazorca em apenas dois jogos.
A primeira partida foi uma rapsódia de Geraldão. Tudo se iniciou com uma confusão entre os zagueiros gremistas Leandro e Vantuir. Num átimo de segundo, o centroavante colorado irrmompeu a área tricolor, soltando labaredas das narinas, como um búfalo selvagem. Em câmera lenta, o bico da sua chuteira cingiu a bola. Leão se esparramou no gramado como um cachorro que cai do caminhão de mudanças. Já na segunda etapa, Geraldão veio com mais ímpeto. Era uma vendeta pessoal. Ainda havia mais.
Foi quando, logo no fim do jogo, os relógios pararam, o coração dos colorados também. Os torcedores azuis cerraram os olhos. Geraldão recebeu a bola. Numa progressão fulminante, lá estava o camisa 9 do Inter cara a cara com o arqueiro gremista, dessa vez ao ser lançado por André Luis. O atacante esperou o bote de Leão, encurtou a distância e o deixou na saudade. O 3 a 1 do Beira-Rio fez o tempo parar como as trombetas de Jericó - mas ainda havia a batalha do Olímpico.
No segundo jogo, Guedes e Renato estavam em seus postos. Portaluppi, porém, conseguiu ser novamente mandado para o chuveiro por Carlos Martins, aos 27 minutos do primeiro tempo. Faltavam ainda apenas dois gols para que Geraldão se sagrasse o artilheiro do Campeonato Gaúcho de 1982. E, como se tocado pelas franjas do Fado, os deuses do futebol lhe concederam a graça divina: na finalíssima, com o olho rútilo e o lábio trêmulo dos profetas, o atacante colorado prometeu os dois tentos à torcida vermelha. E a profecia se cumpriu, como se estivessem gravadas nas escrituras há 10 mil anos atrás. No último, Geraldão roubou a bola do lateral tricolor Paulo Roberto, e o que se ouviu foi o frêmito e o terror instaurado nas sociais do Olímpico, ao verem o ex-atleta gremista ("refugado na Azenha quase como um fracassado,") se transformando, naquele momento histórico, no carrasco do Grêmio. Mais: Geraldão se tornava, diante de todos, um dos mais bem sucedidos homens Gre-Nal de todos os tempos.
Como não poderia deixar de ser, um grupo de samba imortalizou as rapsódias da bola de Geraldão com uma marcha carnavalesca, que se tornaria muito popular na época, num disco comemorativo ao tricampeonato de 1983, com Geraldão novamente sendo o artilheiro daquele Campeonato.
Gera, gera, gera, Geraldão
É um grande artilheiro
Alegria do povão
Saiu do Parque
Foi para a Rua Javari
Com a sua grande força
Nunca foi de se cair
Foi ao Olímpico, uma desilusão
Chegou ao Beira-Rio para ser o campeão
posted by Marcelo Xavier 3:18 PM